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sexta-feira, 20 de julho de 2012
Ed Lincoln - Palladium
Ed Lincoln, o "Rei dos Bailes", morre aos 80 anos no Rio de Janeiro
Músico estava internado há dez dias e foi vítima de insuficiência respiratória
iG São Paulo | - Atualizada às
O arranjador Ed Lincoln, conhecido como "O Rei dos Bailes", morreu nesta segunda-feira aos 80 anos, vítima de insuficiência respiratória. Ele estava internado há dez dias no Rio de Janeiro. Seu corpo será enterrado no cemitério São João Batista, em Botafogo.
Nascido no Ceará, Eduardo Lincoln Barbosa Sabóia mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951 e começou a tocar baixo e piano na famosa boate Plaza, ao lado de nomes como Johnny Alf e Dick Farney. Em 1955, formou seu próprio grupo e gravou seu primeiro compacto, "Amanhã Eu Vou / Nunca Mais".
Capa de disco de Ed Lincoln. Foto: Reprodução
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Nos anos 1960, já tocando órgão, fez fama como músico de bailes e lançou discos como "Uma Noite na Cangaceiro" (1962) "Seu Piano e Seu Órgão Espetacular" (1965). Em 1963, sofreu um acidente automobilístico que o deixou afastado da música por sete meses e limitou seus movimentos para o resto da vida.
É considerado um dos precursores do samba rock, além de ter revelado cantores como Emilio Santiago e Toni Tornado, ambos crooners de sua banda.
Nos anos 1970, afastou-se dos bailes e passou a atuar como músico de estúdio, além de lançar discos com regravações de sucessos internacionais feitas sob pseudônimos como Orquestra Los Angeles. Nos anos 2000, foi redescoberto na Europa e gravou com artistas como Marcelinho da Lua e Ed Motta.
No ano passado, a gravadora Discobertas relançou seis de seus discos, gravados entre 1960 e 1966, na caixa "O Rei dos Bailes". Sua vida também foi tema do documentário "Ed Lincoln - O Rei do sambalanço", em fase de finalização.
sábado, 14 de julho de 2012
Hino à negritude
Hino à negritudeProf. Eduardo de Oliveira
Sob o céu cor de anil das Américas
Hoje se ergue um soberbo perfil
É u’a imagem de luz
Que em verdade traduz
A história do negro no Brasil
Este povo em passadas intrépidas
Entre os povos valentes se impôs
Com a fúria dos leões
Rebentando grilhões
Aos tiranos se contrapôs
Ergue a tocha no alto da glória
Quem herói nos combates se fez
Pois, que as páginas da história
São galardões aos negros de altivez
Levantado no topo dos séculos
Mil batalhas viris sustentou
Este povo imortal
Que não encontra rival
Na trilha que o amor lhe destinou
Belo e forte, na tez cor de ébano
Só lutando se sente feliz
Brasileiro de escol
Luta de sol a sol
Para o bem do nosso país
Ergue a tocha no alto da glória...
Dos palmares os feitos históricos
São exemplos da eterna lição
Que no solo tupi
Nos legara Zumbi
Sonhando com a libertação
Sendo filho também da mãe África
Aruanda dos deuses da paz
No Brasil este axé
Que nos mantêm de pé
Vem da força dos orixás
Ergue a tocha no alto da glória...
Que saibamos guardar estes símbolos
De um passado de heróico labor
Todos numa só voz
Bradam nossos avós
Viver é lutar com destemor
Para frente, marchemos impávidos
Que a vitória nos há de sorrir
Cidadãs, cidadãos
Somos todos irmãos
Conquistando o melhor porvir
Ergue a tocha no alto da glória...
Hoje se ergue um soberbo perfil
É u’a imagem de luz
Que em verdade traduz
A história do negro no Brasil
Este povo em passadas intrépidas
Entre os povos valentes se impôs
Com a fúria dos leões
Rebentando grilhões
Aos tiranos se contrapôs
Ergue a tocha no alto da glória
Quem herói nos combates se fez
Pois, que as páginas da história
São galardões aos negros de altivez
Levantado no topo dos séculos
Mil batalhas viris sustentou
Este povo imortal
Que não encontra rival
Na trilha que o amor lhe destinou
Belo e forte, na tez cor de ébano
Só lutando se sente feliz
Brasileiro de escol
Luta de sol a sol
Para o bem do nosso país
Ergue a tocha no alto da glória...
Dos palmares os feitos históricos
São exemplos da eterna lição
Que no solo tupi
Nos legara Zumbi
Sonhando com a libertação
Sendo filho também da mãe África
Aruanda dos deuses da paz
No Brasil este axé
Que nos mantêm de pé
Vem da força dos orixás
Ergue a tocha no alto da glória...
Que saibamos guardar estes símbolos
De um passado de heróico labor
Todos numa só voz
Bradam nossos avós
Viver é lutar com destemor
Para frente, marchemos impávidos
Que a vitória nos há de sorrir
Cidadãs, cidadãos
Somos todos irmãos
Conquistando o melhor porvir
Ergue a tocha no alto da glória...
segunda-feira, 25 de julho de 2011
O momento magico de Jorge Ben
O momento mágico
"Depois que o primeiro homem, maravilhosamente, pisou na Lua / eu me senti com direitos com princípios / e dignidade de me libertar..."
Jorge Ben, em "Take it Easy My Brother Charlie" (Tenha calma meu irmão Charlie).
Jorge Ben, em "Take it Easy My Brother Charlie" (Tenha calma meu irmão Charlie).
Em 1963 com "Mas que Nada", sua primeira gravação, um negro alto, fino, nervoso, fechado, meio sem jeito, fizera um vôo tão magnífico quanto rápido pelo agitado céu da música brasileira. A canção vendeu 100.000 cópias e foi para a boca de todos. "Sai da minha frente que eu quero passar", ele dizia. E passou. Como um meteoro.
Agora, depois que o primeiro homem, "maravilhosamente, pisou na Lua", Jorge Ben voa de novo e nunca esteve tão brilhante, tão alto, tão livre. "Por isso, sem preconceito eu canto, eu canto a fé, eu canto a sugestão, eu canto a paz, eu canto, na madrugada, take it easy my brother Charlie." Em sua viagem mágica pelas alturas, ele canta o amor, sua amada, "esperada, desejada": "cadê Teresa, aonde anda minha Teresa". E na canção que os críticos cariocas julgaram a melhor do ano passado "ela vem toda de branco, toda molhada e despenteada, que maravilha, que coisa linda que é o meu amor". Nas suas letras não estão os temas de seus trinta anos, mas as palavras de sua eterna infância: "ela é minha menina / eu sou o menino dela". E se os tempos são duros, mesmo para os cantores, em sua simplicidade ele não se preocupa. "Take it easy meu irmão de cor", calma "Charles, anjo 45, defensor dos fracos e dos oprimidos, rei da malandragem", calma, pois eu "moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza".
Suas palavras parecem saídas de um mundo encantado, colorido. Mas saem belas o fortes. Seu impulso vem de um som que pulsa como os gritos que marcam o ritmo das danças selvagens, negras e agressivas. Vem do violão que bate como a escola de samba subindo o morro de volta para casa, depois do desfile, já nostálgica mas sempre animada: chacatum, chacatum, chacatum. O dois-quatro da batida do baião, do chá-chá-chá ou do iê-iê-íê, mas com pautas prolongadas para dar a cadência certa do samba: chacatum, chacatum, chacatuncuntuncuntum chacatum, chacatum. Tocando com os três amigos do Trio Mocotó, que o acompanham há cerca de um ano e estão com ele na Europa, no momento, o som de Jorge Ben é a imagem da alegria. No pandeiro, Nereu Gargalo, 25 anos, nascido Nereu de São José, em Gargalo por código dos amigos para sua prodigiosa força sexual: "Nereu faz aquele som que eu falo de gafieira.. tuc tic tuc tic tuc tic". No zabumba, Joãozinho da Paraíba, dezenove, nascido João Carlos Fagundes Gomes, mas "da Paraíba" porque sseu pai é dono da fábrica dos cobertores famosos: "Ele faz um ritmo todo quebrado, meio baião... Mistura tudo e dá certinho". Na cuíca, o Fritz Escovão, 27, nascido Luiz Carlos de Souza, e "Escovão" por causa de um dúbio significado erótico da palavra escova na gíria da malandragem: "Fritz faz o ritmo mesmo daquela cuíca da Escola de Samba... quiii cum cum cum quiii cum cuni cum", diz Jorge Ben. "E tudo isto aí dá certinho. Como, eu não sei explicar. Isso a gente vê na hora, pô. Se não deste certo eu não tava fazendo, mas tá dando... então sai um ritmo gostoso." Justamente.
BABULINA, BABULINA - Em 1963 a música brasileira estava sendo arrastada pela bossa nova, um turbilhão de melodias sofisticadas e apoiadas no jazz. Seu centro de difusão era o Beco das Garrafas, no Rio, nome de um conjunto de boates do Copacabana, famosas por abrigar em seus uísques Sérgio Mendes, Luís Eça, Ronaldo Bôscoli e outros papas do movimento. Jorge Ben iria iniciar sua carreira exatamente no centro desse turbilhão. Nessa época já havia composto "Mas que Nada" e "Por Causa de Você, Menina", que costumava tocar no violão para o grupo de amigos da Rua Paula Freitas, em Copacabana, onde morava. Não acreditava que dia elas pudessem levá-lo ao sucesso. Mas seus amigos viam melhor o futuro: "Pô, mas que música", diziam. Um dia Jorge aceitou o convite de Manuel Gusmão, amigo de peladas de praia e contrabaixo do Copa Trio, para tocar com ele na alta madrugada da boate Bottle's.
Aceitando o desafio ele aparentemente cumpria apenas uma antiga vocação. A rigor, sua caminhada para a música já começara aos treze anos, quando tocava o pandeiro ganho de presente do pai, Augusto Menezes, estivador, folião e compositor do bloco Cometas do Bispo, do bairro do Rio Comprido, Rio Zona Norte, onde Jorge nasceu (1940). Mais tarde, garoto de ginásio, recebeu de um amigo que foi aos EUA uma camisa com o letreiro "Bop a Lena", título do rock do cantor Ronnie Self, um dos sucessos da época. Entusiasmado, Jorge passou a cantar "Bop a Lena" em festinhas. Mas a pronúncia pouco ortodoxa de seus amigos acabou transformando esse sucesso juvenil no apelido que ele tem até hoje: Babulina.
Com este pasmado não exatamente brilhante, mais as lembranças de um aprendizado autodidático de violão, Babulina Ben começou sua carreira no beco das figuras mitológicas da bossa nova.
MENINA COMPORTADA - A bossa nova era aquela menina-moça caaalma, caalma. Letras de amor, sorriso, flor, barquinhos navegando em águas tranqüiiilas, tranqüiiilas. "Mais que Nada" era nervosa e forte e chegou como um redemoinho. Logo estava no hit parade. Sons estranhos, cantados em falsete pelo negro desconhecido e de nome ainda mais estranho, passaram a ser ouvidos então com insistência, a partir de junho de 1963: "Saiupá, saiupá, saiupá, saiupapa / Ôoooo ariá laiôm, obá, obá, obá / Mas que nada / sai da minha frente que eu quero passar". Um samba diferente pedia passagem. Jorge Ben chamava ainda mais a atenção pela maneira intimista e quase infantil de pronunciar as palavras, detendo-se numas sílabas, alongando outras, sempre dentro da marcação provocante: "Voxê passa o não me ooolha / mas eu olho pra voxêe / voxê não me diz nada, mas eu digo pra voxê". Da mistura do nagô com o português vinha uma letra simples mas fértil que engrossava o comprometido com a frágil e delicada bossa nova. Em "Chove Chuva", outro de seus sucessos na época, os santos nagôs "sacudin, sacunden", uniam-se para uma saudação à deusa do amor, "agoiê-obá", e a celebração da festa de dois guerreiros famosos "dombin e dombém": "sacudin, sacunden, imborocongá / dombin, dombém, agoiê-obá".
Em pouco tempo Jorge tornou-se uma figura conhecida, nacionalmente. Em 1965 o Ministério das Relações Exteríores o convidava para uma excursão aos EUA, com um grupo da bossa nova onde estava entre outros Sérgio Mendes.
Os lucros imediatos da viagem foram mais de coisas de espírito. Jorge viu João Gilberto, seu grande ídolo: "Numa casa noturna consegui ouvir 'O homem' e tocar para ele. A única coisa que ele disse durante a noite toda foi 'muito bom'. Tivemos uma conversa mental".
A QUEDA - De volta ao Brasil, encontrou um público bem menos sensível a seus refrões singelos. Praticamente os mesmos que haviam aplaudido a delicadeza da bossa nova estavam então entusiasmados por palavras bem menos líricas. Ouviam agora os festivos protestos de Bethânia e Vandré, Elis Regina, Nara Leão, João do Vale e Zé Keti. Jorge estava entre os extremos. Se sua música sempre ficou distante do quase pieguismo da bossa nova, desta vez estava longe também dos brados quase revolucionários dos novos ídolos. Em muitos aspectos, Jorge Ben era realmente um marginal de todos esses movimentos. Era o negro vindo da Zona Norte, filho do morro que não fazia o samba da Escola. E nem o iê-iê-iê ou o bolero, a outra saída para o artista das classes pobres que não tem a formação dos intelectuais da classe média. Durante algum tempo conseguiu um difícil equilíbrio entre essas duas correntes, ambas no apogeu (do lado o protesto era o tempo dos maiores festivais; do lado do iê-iê-iê era a época do auge do programa "Jovem Guarda". Roberto Carlos acabara de lançar sua meta: "Quero que Vá Tudo para o Inferno"). Um dia, o equilíbrio tornou-se impossível. Jorge deveria cantar numa segunda-feira em "O Fino da Bossa", programa de Eiis Regina e Jair Rodrigues. No domingo aceitou um convite de seu amigo Roberto Carlos para paricipar do "Jovem Guarda". Isso e mais o fato de ter composto o rock "A História do Homem que Matou o Homem que Matou o Homem Mau" (paródia ao sucesso "A História de um Homem Mau", de Roberto Carlos) decretaram sua "morte" para o grupo dos "contestadores". No dia seguinte, seu nome tinha sido cortado da lista dos escalados para "O Fino". Sem alternativa, ele agregou-se à horda dos "cabeludos", naquela época representantes dos conformistas.
A convivência de Jorge Ben com a jovem guarda não foi longa nem profícua. O íê-iê-iê simplório enquadrava o seu ritmo aberto com certa dificuldade. "Toca em baião que dá certo", Jorge costumava explicar para os cabeludos que o acompanhavam. O resultado era próximo de seu antigo som no Beco das Garrafas. Mas apenas próximo, não mais que um som precário de quem precisava mostrar, pelo menos, que ainda continuava existindo. Durante três anos, de 1965 a 1968, Jorge Ben manteve esse vôo baixo, cujo único impulso era o enorme sucesso que "Mas que Nada" e "Chove Chuva" faziam no exterior nas gravações de Sérgio Mendes. No Brasil, ele era um nome apagado.
A LIBERDADE - Em 1968, os tempos estavam maduros para um novo movimento. E Jorge Ben, desta vez, iria ter e aproveitar sua grande chance. Guilherme Araújo, empresário de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o convidou para aliar-se aos tropicalistas, que iniciavam uma grande arrancada. Para quem estivera dentro da bossa nova e no iê-iê-iê, e sempre só, esta não era uma tarefa difícil. Em muitas de suas melhores canções já estavam a ironia e a liberdade freneticamente procuradas por Gil e Caetano. O que é mais tropical do que a banana? Isso ele tinha: "Olha a ba-na-na / olha o ba-na-neiro / olha a banana nanica / olha a banana maçãã". O que era mais tropícalista que o Chacrinha? Isso ele já cantava: "Salve o Chacrinha / Salve o Dr. Barnard / Salve até as sogras e salve-se quem puder". No conteúdo e na forma ele fez poucas concessões aos novos cabeludos, agora contestadores e muito mais irrequietos que os antigos conformistas de Roberto Carlos. Guilherme Araújo queria que ele usasse camisolões orientais como Gil e Caetano. Mas ele recusou. Apenas umas poucas vezes, acanhado, aceitou erguer o braço esquerdo para mostrar ao público o punho cerrado na saudação simbólica do poder negro. A militância política decididamente não era uma lição que estivesse disposto a aprender. Com o braço erguido como um Stokelev Carmichael ele cantou num festival de 1968 a letra de uma canção que bem poderia ter sido escrita por um Simonal: "Queremos guerra / mas só se for para brigar com minha sogra / que ainda não sei / Por que não gosta de mim" ("Queremos Guerra", música desclassificada). Mas algumas poucas coisas ele acabaria aceitando dos baianos inovadores. Com Gil, no programa "Divino Maravilhoso", ele aprendeu o hábito do improviso. Seu samba, embora ainda basicamente o mesmo, ficou mais elaborado e criativo. Suas mãos se libertaram da antiga timidez para tirarem sons de tambor do corpo do violão, ou para se contorcerem sensualmente como na sua atual interpretação de "Domingas".
O sucesso de agora o encontra mais aberto para recebê-lo. Ele conseguirá segurá-lo por mais tempo, ou é seu destino ser como os cometas, fulgurantes e rápidos? No fundo, Ele parece não estar muito preocupado com a glória eterna. Embora o seu talento tenha chegado à idade da razão, suas idéias continuam circulando em torno da adolescência e da infância. No seu pequeno apartamento em São Paulo, pilhas de gibis mostram qual é um dos seus passatempos favoritos. Os heróis dos quadrinhos não raramente representam para ele ideais de justiça social. Ao mesmo tempo, sua agenda atual é uma das mais intensas entre os cantores brasileiros e seguramente a mais disputada. Nesta semana, ele cantará em Roma, Milão, Rio e Curitiba. O último de seus seis LPs vendeu cerca de 50.000 exemplares no Brasil. Nos EUA, "Mas que Nada" vendeu 1 milhão de cópias. Jorge, agora, cobra Cr$ 4.000 por show com o Trio Mocotó, para cantar por volta de uma dúzia das cem músicas de que se lembra ter composto. Mesmo assim não é exatamente um profissional. Em São Paulo, fazendo um show numa boate, duas semanas atrás, ele preferia cantar de graça e com mais afinco numa boate menor, onde seus amigos o esperavam religiosamente todas as noites depois do espetáculo pago. Aparentemente desinteressado de promoção pela imprensa, marcando encontros aos quais quase sempre não comparece, contando histórias de sua vida pessoal sem fazer muita distinção entre a realidade e a fantasia, dá a impressão de ser uma magnífica figura de seus próprios quadrinhos. E está na sua:
"Olha pessoal, estamos aqui fazendo este show porque a gente gosta de tocar e de tirar um sarro. Mas o som da boate está um lixo. E é todo dia assim. Um dia sim, outro dia não, está certo. Mas todos os dias não dá."
O público ri. Nereu solta uma risada, Jorge aproveita a deixa.
"De que você está rindo, Gargalo?"
Nereu ri ainda mais. O público não entende por que Nereu ri tanto. O trio começa a rir também. Jorge avisa: "Olha aí pessoal, olha a seriedade". Na cuíca, Fritz Escovão; no pandeiro, Nereu Gargalo. Nereu ri. "Ih, rapaz, assim não" Jorge olha para trás como se estivesse censurando Nereu. Mas Fritz começa a rir também. "E, no zabumba, Joãozinho Paraíba, ex-invicto." Nereu, então, encosta-se na mesa, apóia-se no ombro de Fritz e não consegue parar de rir. Joãozinho ri também, meio sem graça. "Que é que é meu filho? Todo mundo já passou por isso." O público acha graça, Jorge começa os acordes de "Salve-se Quem Puder":
"Minas Gerais, uai, uai /São Paulo, sai da frente / Guanabara, como é que é / Este é o meu Brasil / Futuro e progresso do ano 2000 / quem não gostar e for do contra que vá prá (...)"
A última frase é feita na cuíca. O público vibra.
Sua mulher, seu herói,suas musas, suas cores
Terminado o show, Jorge vai jantar. Continua reclamando do som. Muda de roupa no camarim. Tira o colete, a gravata, põe uma camisa de malha vermelha e uma calça cinza-claro justíssima Uma jovem loura vestida de preto aparece no camarim. Rapidaménte, éles saem abraçados e vão jantar. Ficam num canto da mesa esperando o Trio Mocotó e o empresário de Jorge, Roberto Colossi, chegarem. Jorge quase não fala. A loura é Teresa. Nunca foi fotografada pela imprensa brasileira. Ela é a Teresa do Jorge Ben, que "É Flamengo e tem uma nêga chamada Teresa". "País Tropical" nasceu quando Jorge telefonou para ela logo após uma vitória do Flamengo na Taça Guanabara de 1968: "Sabe, estou contente de ser Flamengo e ter uma nêga chamada Teresa". De volta para São Paulo, no avião, a frase começou a virar música. Teresa reaparece em várias canções: "Teresa minha amada, minha musa, gosto muito de você / sou um malandro enfeitiçado, enciumado, que espera por você". Musa é uma palavra já quase fora de moda. Mas esta moça esguia e bonita, 24 anos, esquiva e preocupada, é uma musa. Ela e Jorge Ben têm casamento planejado para o ano que vem, com Os Originais do Samba, um dos conjuntos que acompanharam Jorge até recentementeo, e o Trio Mocotó tocando "Que Maravilha".
Quando Jorge Ben aparece na rua da casa de Teresa Inaimo com seu Kharmann-Ghia gelo batizado de "Thor", um de seus heróis de quadrinhos, a garotada dos vizinhos faz uma corrente humana cortando sua passagem. E se o cantor engrena a ré e ameaça fugir, outra turma de meninos o cerca por trás. E então ele se rende, abraça a meninada, distribui autógrafos. Os moradores aparecem nas janelas, as empregadas e mocinhas correm atrás do ídolo.
Se você quer ver Jorge Ben irritado pergunte por Teresa, tente fotografá-la. "É perder a amizade do Jorge. Ela é o patrimônio que ele tem", diz Carlos Alberto França, vinte anos, secretário e escudeiro de Jorge Ben. Do resto, quando se consegue que Jorge Ben chegue ao local marcado para uma entrevista, ele fala de tudo. Durante duas horas, na semana passada, pouco antes de seu embarque para a Europa, o editor de Música de VEJA, Tárik de Souza, conversou com Jorge sobre seu som e sua inspiração, das músicas que compôs para suas várias amigas e de sua visão do mundo.
Prefiro cantar as minhas músicas, porque faço para mim mesmo e sempre é uma história, nunca são músicas assim fictícias, são sempre um troço que acontece(...). A música "Tuaregue" eu fiz porque sempre fui vidrado nesse negócio de Oriente e li uma vez a história dos tuaregues, os cavaleiros azul-marinho do deserto. Eles vivem até hoje, em pleno século XX, como se vivia há 6.000 anos. Eles vivem de sal, salinas. Os homens usam véu e as mulheres usam a cara limpa. Então eu comecei a rabiscar um pouquinho, saber um pouquinho como é que é esse negócio de tuaregue. Eu tinha visto uma figura de tuaregue, achei uma figura bacana, com aquela roupa azul-marinho, montado num cavalo. E aquele pôr de sol brilhando e ele em cima do cavalo preto, todo dourado, bacana, e de azul-marinho... e com um sabre na mão e um rifle. Eu vi isso numa revista de gravuras... e eu achei aquilo bacana. Aquelas palavras árabes que falo na letra eu pedi que traduzissem. É um dialeto muçulmano: "Deus faça com que meus inimigos tenham os olhos mas não me vejam e me ajude a ser feliz para que os meus possam ser também". Para tocar "Tuaregue" tem de desafinar duas cordas. Tem aquele som árabe... cítara, ou alaúde... um troço assim. Então no violão dá para fazer. Vi lá no dedo como é que dava as frases, então deu para fazer: dem dem on dem dem on dem dem. Dá direitinho, conhecia esse som por filmes.
Jorge fala depois de seus sons coloridos e das musas, que não são Teresa, mas estas "só de se ver, só, entendeu, de se ver passar..."
Antes de eu fazer a letra, quando eu acho uma harmonia diferente, ou uma música que eu tenho em mente, eu começo a tocar e aí eu vou sentir as letras. A harmonia muitas vezes tem um som de rosa, de flores. Eu sempre acho que tem uma hora que tem de botar uma rosa, uma flor. Tem uma hora que a harmonia fala em amor. Um simples toque do dedo no violão, de mudança, a gente sente. Às vezes eu sinto... um simples toque de mão e aqui deve entrar a palavra amor, por esse som bonitinho, esse tom que saiu, esse som é uma rosa, esse som é uma mulher. O som rosa para mim sai sempre em menor, acorde sempre menor. Um si menor, por exemplo, dependendo do si, ou lá menor... lá menor é uma mulher para mim. É uma nota sempre baixa e sai bacaaana, um troço lindo, é suave, sai até perfumado o som.
Eu acho chuva muito poético. Eu acho a chuva bacana à bessa. Porque as minhas chuvas são chuvas todas de alegria. A chuva nas minhas músicas é o momento do amor. Em "Chove Chuva" é uma roisa que eu quero que chova pra molhar pra mim poder fazer uma prece, entendeu? Eu quero que chova, isso aí é muito difícil de explicar. A maioria de minhas musas são musas de eu ver, só, entendeu? Tem musa de eu ver passar. "Carolina Carol" foi assim. Começamos a música, eu falei assim pro Toquinho "Toquinho, tou por dentro, tu lá na pior mesmo, lá gamado", então Carolina, eu falei, temos de fazer uma música para nossa musa aí. Carolina Carol bela. O negócio é o seguinte. A Carolina tava em casa, aí bateram, nós távamos lá e bateram, não sei quem era. Então saiu: "Foi numa tarde de domingo (que era uma tarde de domingo mesmo) que alguém perguntou por ela". Então nós fomos rabiscando, rabiscando. Pô, saiu essa música, e depois "Que Maravilha".
Para essas musas que ele chama do tipo "só de ver", Jorge compôs ainda "Bicho do Mato", para a violonista Rosinha de Valença, que viajou com ele e Sérgio Mendes pelos Estados Unidos em 1965. Para Veruschka, a famosa manequim, fez "Quase Colorida". Ela ouvira algumas músicas de Jorge Ben em Paris e quando veio ao Rio em 1965 pediu a um amigo do cantor, que era manequim da Vogue, para marcar um encontro com ele. Eles se encontraram na casa do manequim. Veruschka queria uma canção para desfilar. "Você é linda, quase colorida / você é o amor, o amor da minha vida." Por que linda e quase colorida?
Eu gosto muito de azul e rosa e verde e amarelo e rosa. Eu acho o rosa a cor do amor. Tem uma música que eu falo "Sai de mim mulher / pois eu não vou trair o meu amor que é puro e belo / é verde e amarelo e rosa / ela tem um verde de esperança, um amarelo de lealdade e um rosa de amor e bonança". O amarelo eu sinto que é lealdade. Não é por ser brasileiro que eu tou fazendo média, não. O verde, todo mundo sabe que é esperança, e o rosa é a cor do amor. A gente sempre dá rosas para uma mulher.
Para sua mãe, Jorge Lima Menezes também fez uma canção: "Sílvia (para Sílvia San Ben, descendente de etíopes) Lenheira": "Vai embora mas vai me amando". "Eu me lembrava dela carregando lenha na cabeça."
Minha mãe não trabalhava. Meu pai era estivador no cais do Rio. Sempre foi um cara muito trabalhador. Eu tenho orgulho de meu pai. Era estivador, tinha barraca no feira... de peixe... safava bem. A única coisa que ele sabia mais ou menos tocar era o pandeiro, só. E ele gostava de cantar, muito baile, sabe como é... pessoal da estiva... tem baile todo fim de semana... meu pai só gravava música pra carnaval... mas isso eu não me lembro direito... era garoto. Eu me lembro de uma música do meu pai, de carnaval... não sei que ano foi... Foi Gilberto Alves que gravou ... é dele e outro camarada... (da estiva também), sei que é: "Trabalho tanto..." (cantarola), é "Cada um com Seu Pecado". O outro compositor é Armando não sei do quê... não me lembro direito não. Meu pai acho que é de 1920... Minha mãe é de 1911 ... Minha mãe é da Etiópia, mas não sou parente de nobres nem príncipes. Isso é onda.
Jorge não foi além do ginásio. Gostava mesmo era de praia e de jogar bola. Da escola de padres ficou o hábito de ir à missa. Acha que deve ir todo domingo, na primeira, que é mais vazia. Se vai mais tarde, a igreja cheia, sente vergonha das pessoas, que ficam olhando para ele. Da infância vem o hábito de sonhar quase com os olhos abertos. "Eu Descobri que Sou um Anjo" nasceu de um sonho:
Eu tava lá em casa, no Rio, então eu sonhei que acordei e eu estava voando. Aí, naquele pensamento, eu saí assim olhando da janela e vi aquela minha rua assim uma pista. Aí eu fui até a rua, a minha rua assim vazia ainda e falei: "Pôxa, que bacana... " Como se fosse assim uma pista. Aí eu fui até a rua, olhei, assim, tudo vazio, saí correndo. Quando dei por mim já estava voando por entre estrelas, aí que eu descobri que era um anjo.
Eu chamo Charles de anjo 45 porque ele era um cara bom, muito sentimento. Eu acho que ele é um anjo porque ele tem aquêle pulso, um pulso forte, ele tem um coração bom, o coração bom pros caras que são bons e o pulso forte pros inimigos. Então eu acho que ele é um anjo, ele é um justiceiro.
O Charles é um amigo lá do Rio Comprido, da Tijuca, de infância. É um cara que por motivos diversos aos meus se meteu em bobagem. Bobagem, não sei, ele tava na dele... O Charles tinha mil coisas, tinha ponto de bicho, tinha boca de fumo, mas é um cara bacana, sensacionai, pô. Ele foi preso por causa de uma 45. Ele usava 45, depois é que ele foi preso, condenado. O nome dele é Charles Antônio Sodré, ele é filho de português, ele deve ter uns 28, 29 anos. Ele não tem crime nenhum.
Acho que já vai ser solto, ele era bom, mas não era cara de ninguém passar ele pra trás, não... Ele foi meu amigo desde garoto. Jogamos bola juntos. No meu bairro, quando eu era garoto, eu fui criado num bairro que era uma desgraça. Agora é lindo o Rio Comprido. Pô, eu saía do colégio, do lado tinha um salão de bilhar, que tinha apelido de faroeste. Saía do colégio, tinha bandido prá todo lado, trocando tiro, pá, pá, pó...
Charles é também quase uma figura dos sonhos de Jorge Ben, um personagem fantástico de suas histórias em quadrinhos. Jorge tem uma música para "Barbarella": "Quem me dera eu ser um intergalático para estar dormindo nas estrelas e só falando de amor com você".
Eu quase não leio. Prefiro história em quadrinho. Meus heróis favoritos? Tem uma porção deles. Meu herói favorito, no momento agora estou lendo muito, chama Thor. No Thor, por exemplo, eu acho sensacional um deus baixar aqui na terra e se apaixonar por uma terrestre e não poder casar, porque o pai dele, o deus supremo, Odin, o todo-poderoso deles, não consente que um deus se case com uma mortal. Então eu acho esta história bacana, e o estilo de vida que eles levam lá no céu deles, acho aquilo interessante. Como é que o cara consegue ter tanta idéia assim para bolar estas histórias? É um troço que prende a gente, e não é uma história boba, porque aquilo tudo é uma história assim meio científica. Você pode ver, tem foguetes, tem outros planetas, tem os inimigos deles, tem o homem absorvente, uns caras que... Ele luta contra os mais terríveis inimigos e sempre consegue vencer; ele, com a ajuda de um martelo que ele tem. Então acho isso bacana, pôxa, aquele guardião. Embora sendo de outro planeta, ele é o guardião da Terra, tá aqui protegendo a Terra contra todo e qualquer inimigo.
E por que não fazer canções de protesto?
Olha, às vezes eu penso, eu queria ser um super-homem, um inatingível, com muitos poderes. Aí eu ia acabar com muita sujeira que eu vejo aí. Mas se eu fosse um super-homem...
sexta-feira, 13 de maio de 2011
MOTOWN 50 ANOS
Nesta última segunda-feira, 12.01, a Motown Records, o lendário selo americano de soul music e meu selo favorito, comemorou 50 anos.
A gravadora, fundada por Berry Gordy em Detroit, lançou estrelas como The Four Tops, The Temptations, Smokey Robinson, Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Supremes, Jackson Five entre muitos outros incríveis.
Com seu estilo inconfundível, a Motown se tornou uma fábrica de hits e teve papel fundamental na promoção da igualdade racial nos Estados Unidos, projetando os artistas negros da gravadora ao topo das paradas de sucesso em todo o mundo. AINDA BEM, PARABÉNS!!!!
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
JORGE
O HOMEM PATROPI
Na maior entrevista de sua carreira, Jorge Ben Jor fala de família, suingue e alquimia
- Na maior entrevista de sua carreira, Jorge Ben Jor mostra por que, nos últimos 40 anos, nunca deixou de ser uma das mais completas e transparentes traduções do Brasil. Ele abre o jogo sobre a mãe de família etíope e o pai descendente de austríacos, sobre a fusão do samba com o rock, a ponte aérea Rio-Flórida, o futebol, o golfe e a transmutação de metais em ouro. Nas próximas páginas, relaxe e curta o suingue do maior alquimista da música brasileira
Há quase cinco décadas Jorge Ben Jor tem oscilado entre fases de superexposição e outras de relativo sumiço. Mesmo nessas últimas, desde 1963 nunca deixou, nem um minuto sequer, de ser uma das mais completas e transparentes traduções de Brasil.
Idêntico ao Brasil, Jorge é uma usina produtora de sambas. Mas são sambas tortos, impuros, exuberantes, miscigenados, sacudidos por influência norte-americana do funk e da soul music. Iguaizinhos ao Brasil, são sambas mestiços de europeus e indígenas, de quando todo dia era dia de índio, e black music total, música negra brasileira.
Historicamente, é criador de letras de imediato poder comunicativo e contundente simplicidade. Sob linguagem direta, sem rebuscamentos nem medo de derrapar nas normas cultas da língua, conta histórias simples e não raro tortuosas, mas que todo brasileiro (e mesmo um punhado de gringos) entende num piscar de olhos – o trio formado por “País tropical”, “Fio maravilha” e “Taj Mahal” é suficiente para provar e mover a massa, onde e quando for repetido.
Suas musas inspiradoras não são garotas bossa-nova de Ipanema (mas poderiam até ser, que elas o adoram). Estão mais para meninas do subúrbio, negras, louras, morenas e mulatas de nomes Domingas, Jesualda, Aparecida, Bebete, Berenice, Katarina, Ana Tropicana, Xica da Silva. O próprio Jorge sempre esteve menos para Tom Jobim que para, bem... para Jorge Ben (Ben Jor ele só virou em 1989). Quando está aparecido, Jorge é sucesso simultâneo de público e de, digamos, crítica – não há músico suingado dos anos 90 ou 2000 que não goteje influência de sua matriz sonora (e filosófica), dos mangueboys a Seu Jorge, de Fernanda Abreu a Leandro Lehart, de Marisa Monte a Mano Brown.
Jorge andava sumido outra vez e ressurgiu no último dia 19 de setembro, numa das maiores casas paulistanas de shows – abarrotada como se ele fosse tema de abertura da novela das nove. Iniciada a apresentação, ficou imediatamente claro que o homem baile não apenas está de volta, mas que alguma coisa muito nova está acontecendo com ele. Ao longo da noite, mostrou que fez as pazes com o adorado disco A tábua de esmeralda, marco na história da música brasileira ao qual permaneceu reticente por muitos anos.
Concebido em 1974, era todo forrado de referências à alquimia, a arte quimérica de transformar metais diversos em ouro. Naquele ano, por sinal, não era só Jorge que andava a toda. Tim Maia se convertera ao Universo em Desencanto e fazia propaganda religiosa da organização nos maluquíssimos LPs Tim Maia Racional. Raul Seixas cortejava a magia negra e alardeava aos quatro ventos a Sociedade Alternativa. A exemplo do que fez Tim com a fase Racional, Jorge trancou no baú aquele capítulo.
Fato raríssimo, falou pelos cotovelos – sobre alquimia, a vida de seminarista, a também discretíssima família, suas relações com rap e funk carioca
A entrevista a seguir dá mais uma pista de que algo se move em seu peculiar imaginário. Jorge é desafio árduo para qualquer entrevistador. Geralmente muito reservado, gosta de responder com monossílabos e segundo uma lógica interna bem particular. Pois não foi assim desta vez. Atendeu à reportagem de Trip em condições de alta temperatura e pressão, tipicamente “benjorianas”, mas, fato raríssimo, falou pelos cotovelos – sobre alquimia, a vida de seminarista, a também discretíssima família, suas relações com rap e funk carioca.
A primeira etapa do encontro aconteceu no dia do show paulistano. Viajamos ao Rio de Janeiro apenas para encontrá-lo no aeroporto Santos Dumont e embarcar a seu lado para São Paulo. Durante o voo, aconteceu a maior parte da entrevista. Num segundo encontro, a convite dele, Trip conheceu a atual menina dos olhos de Jorge, um sarau chamado Corujão da Poesia, do qual ele é padrinho e mestre de cerimônia. Às terças-feiras, numa livraria 24 horas do Leblon, um Ben Jor assíduo (e notívago, talvez insone) faz vezes de MC e conduz uma jam como fundo musical para declamações madrugada adentro.
Imagem: Adhemar Veneziano / Editora Abril
O compositor com sua mãe, Silvia Saint Ben Lima, em registro de 1969
Confirmou-se ali a impressão de que o cantor cultiva apaixonadamente o hábito de permanecer eterna criança. O mesmo Jorge galante que no avião apanhou um punhadão de balas toffee do cesto da aeromoça (“Ah, aceito, essas balinhas me deixam maluco!”) reaparece no Corujão, distribuindo presentinhos para poetas: às moças, sacolinhas de São Cosme e Damião; aos rapazes, pipas (ou papagaios, bariletes, pandorgas, como listava em “Olha a pipa”, outra música que depois ficou perdida no tempo).
À maranhense Lília Diniz, que cantou e declamou Patativa do Assaré com voz de trovão, deu uma boneca (“Faz muito tempo que não ganho uma”, ela se espantou). Maravilhou-se quando o jovem poeta e palhaço Lucas Castelo Branco encenou com furor um enorme poema de Fernando Pessoa. Num dia em que o menino chamado Jorge estava a toda, ele ainda cedeu à sugestão da produção para uma suada sessão de fotos e então o inesperado aconteceu: às 3h30 da manhã, Jorge Ben (Jor) tornou-se o que sempre foi, o homem da gravata florida. Tal qual o país em que nasceu e que canta dez de cada dez canções que compõe, parece viver um momento de intenso reencontro consigo mesmo. Se por acaso você estranhar suas palavras sobre alquimia e transmutação, experimente escutá-lo não no sentido literal, mas sim no simbólico, no poético. Afinal é disso, de poesia, que o homem verde-negro-amarelo da gravata florida vive em tempo integral. Voa, Jorge, voa.
“Fiz dois anos de seminário, aqui no Rio, e aprendi latim por causa da literatura de São Tomás de Aquino”
(NO SAGUÃO DO AEROPORTO, ELE COMEÇA CONTANDO, EMPOLGADO, SOBRE O CORUJÃO DA POESIA.) VOCÊ LÊ POESIA?
Leio. Mês passado comemoramos lá os 102 anos de Jorge Luis Borges, o poeta argentino. Fizemos uma hora só de Borges. Levei um livro, todo mundo leu Borges, uma coisa maravilhosa. Só pra ficar nos Jorges, já fizemos Jorge de Lima, grande poeta brasileiro, alagoano, médico que se apaixonou pelo Rio de Janeiro.
Leio. Mês passado comemoramos lá os 102 anos de Jorge Luis Borges, o poeta argentino. Fizemos uma hora só de Borges. Levei um livro, todo mundo leu Borges, uma coisa maravilhosa. Só pra ficar nos Jorges, já fizemos Jorge de Lima, grande poeta brasileiro, alagoano, médico que se apaixonou pelo Rio de Janeiro.
VOCÊ SEMPRE GOSTOU DE LER? NOS ANOS 70, CITAVA DOSTOIÉVSKI EM MÚSICAS...
Sempre, sempre. Ganhei um livro de sonetos de Shakespeare que é a coisa mais linda, rapaz. O cara era fodaço, genial. Os sonetos são todos amorosos, têm coisas sarcásticas, mas é todo amoroso, ele devia ter uma musa maravilhosa. Leio as biografias dos meus musos, os poetas brasileiros. Oswald de Andrade, puta que pariu!, os versos dele, sonetos, tudo malandreado, ele já era moderno, estava à frente. Na minha adolescência já lia coisas difíceis, lia e decorava textos em latim. Sabia São Tomás de Aquino, a Suma teológica, coisas que aprendi no seminário.
Sempre, sempre. Ganhei um livro de sonetos de Shakespeare que é a coisa mais linda, rapaz. O cara era fodaço, genial. Os sonetos são todos amorosos, têm coisas sarcásticas, mas é todo amoroso, ele devia ter uma musa maravilhosa. Leio as biografias dos meus musos, os poetas brasileiros. Oswald de Andrade, puta que pariu!, os versos dele, sonetos, tudo malandreado, ele já era moderno, estava à frente. Na minha adolescência já lia coisas difíceis, lia e decorava textos em latim. Sabia São Tomás de Aquino, a Suma teológica, coisas que aprendi no seminário.
VOCÊ FOI SEMINARISTA?
Fui, fiz dois anos de seminário, aqui no Rio. Aprendi latim por causa de São Tomás de Aquino [pronuncia “Aqüino”, com trema]. Ele tem uns textos lindos, a Suma teológica... Saber que um santo como ele era um alquimista famoso... É demais, pra você ver, São Tomás de Aquino escreveu uma coisa simples, bonita e poderosa [fala em tom recitado]: “O mundo é um suceder de níveis, desde a matéria inanimada até a suprema beatitude do ser eterno, que é Deus”. Ele diz que a primeira lei natural é a conservação da vida – todo mundo quer conservar a vida –, depois a geração, que é ter filhos e educar os filhos, e depois o desejo de verdade. O único país que aproveitou bem a teologia de São Tomás de Aquino foi a Alemanha. A Constituição alemã é toda tomasiana, toda. Outros imitam, mas a Alemanha...
Fui, fiz dois anos de seminário, aqui no Rio. Aprendi latim por causa de São Tomás de Aquino [pronuncia “Aqüino”, com trema]. Ele tem uns textos lindos, a Suma teológica... Saber que um santo como ele era um alquimista famoso... É demais, pra você ver, São Tomás de Aquino escreveu uma coisa simples, bonita e poderosa [fala em tom recitado]: “O mundo é um suceder de níveis, desde a matéria inanimada até a suprema beatitude do ser eterno, que é Deus”. Ele diz que a primeira lei natural é a conservação da vida – todo mundo quer conservar a vida –, depois a geração, que é ter filhos e educar os filhos, e depois o desejo de verdade. O único país que aproveitou bem a teologia de São Tomás de Aquino foi a Alemanha. A Constituição alemã é toda tomasiana, toda. Outros imitam, mas a Alemanha...
É FÁCIL DE ENCONTRAR? SÃO TOMÁS DE AQUINO NÃO É MUITO POPULAR, É?
Não, não é. Uma vez na Itália, terra dele, perguntei e o livreiro falou: “Não, São Tomás de Aquino é um santo série B” [ri]. Não é um santo série A. Série A é São Pedro, São Paulo...
Não, não é. Uma vez na Itália, terra dele, perguntei e o livreiro falou: “Não, São Tomás de Aquino é um santo série B” [ri]. Não é um santo série A. Série A é São Pedro, São Paulo...
SÃO JORGE...
São Jorge também é B... Aqui no Brasil que é A. Gozado... [Nos acomodamos nas poltronas do avião]. Na Delta Airlines e na American Airlines tem as aerovelhas [risos], elas são bravas, “Não pode passar aí, não é seu lugar, porra!”.
São Jorge também é B... Aqui no Brasil que é A. Gozado... [Nos acomodamos nas poltronas do avião]. Na Delta Airlines e na American Airlines tem as aerovelhas [risos], elas são bravas, “Não pode passar aí, não é seu lugar, porra!”.
Imagem: Hamilton / AJB
Em um boteco, foto para reportagem do Jornal do Brasil em 1970
VOCÊ CHAMA ELAS DE AEROVELHAS??
Não, não, mas são todas velhinhas bonitinhas, arrumadinhas. Os americanos têm isso de bom, deixam as velhinhas trabalharem de aeromoças [um jogador de futebol se senta a seu lado].
ESSE NÃO É DO SEU TIME...
Não. Ele foi do Flamengo.
Não. Ele foi do Flamengo.
NÃO ENTENDO NADA DESSE ASSUNTO...
Esporte você não cobre não?
Esporte você não cobre não?
NÃO, MAIS MÚSICA.
Só música? Ah, o relacionamento da música com futebol é bom, pô.
Só música? Ah, o relacionamento da música com futebol é bom, pô.
POIS É, A COMEÇAR POR VOCÊ, JORGE. NUNCA ENTENDO ONDE VOCÊ MORA. UM POUCO NOS EUA E UM POUCO NO RIO?
É, moro um pouco lá, um pouco no Rio e um pouco em São Paulo. Antigamente era mais nos Estados Unidos, por causa da escola e da faculdade dos meus filhos, Gabriel e Tomaso. Fiquei nos Estados Unidos, porque lá, enquanto o filho é menor, você tem que estar perto. O tutor tem que aparecer, pra pagar as contas principalmente [ri] e pra saber como estão as notas. Depois, na faculdade melhorou, mas na high school tinha que ficar mais tempo lá que aqui. Morava no interior da Flórida, em uma cidade bem caipira, Bradenton, uma cidade onde você vê ainda aqueles caras que nem em filme, de macacão e chapéu de rancheiro. A cidadezinha tem a maior high school pra estudantes de fora.
É, moro um pouco lá, um pouco no Rio e um pouco em São Paulo. Antigamente era mais nos Estados Unidos, por causa da escola e da faculdade dos meus filhos, Gabriel e Tomaso. Fiquei nos Estados Unidos, porque lá, enquanto o filho é menor, você tem que estar perto. O tutor tem que aparecer, pra pagar as contas principalmente [ri] e pra saber como estão as notas. Depois, na faculdade melhorou, mas na high school tinha que ficar mais tempo lá que aqui. Morava no interior da Flórida, em uma cidade bem caipira, Bradenton, uma cidade onde você vê ainda aqueles caras que nem em filme, de macacão e chapéu de rancheiro. A cidadezinha tem a maior high school pra estudantes de fora.
VOCÊ ESTRANHAVA? O CARA QUE COMPÔS “PAÍS TROPICAL” MORAR NESSE LUGAR...
Não, porque dali em menos de quatro horas você está em Miami, de carro. Eles eram internos, a escola soltava no fim de semana, e eles iam para Miami. Hoje Gabriel mexe com tecnologia de música e esse negócio de hotelaria. Faz hotelaria e música eletrônica, essa de DJ.
Não, porque dali em menos de quatro horas você está em Miami, de carro. Eles eram internos, a escola soltava no fim de semana, e eles iam para Miami. Hoje Gabriel mexe com tecnologia de música e esse negócio de hotelaria. Faz hotelaria e música eletrônica, essa de DJ.
ENGRAÇADO, O FILHO DO JORGE BEN...
É, e o Tomaso se formou em business administration. Trabalha na bolsa, em Wall Street. Pra Gabriel ainda faltam dois anos de faculdade. Agora minha mulher fica lá com eles, só vem pra cá resolver umas coisas.
FAZ MUITOS SHOWS LÁ?
Lá tem muito trabalho. Mas a agenda tá mais aqui. Junior [Airton Valadão Jr., irmão do cantor Nasi] é um grande empresário. Se você falar pra ele: “Ó, eu quero de segunda a sexta”, ele arranja.
É, e o Tomaso se formou em business administration. Trabalha na bolsa, em Wall Street. Pra Gabriel ainda faltam dois anos de faculdade. Agora minha mulher fica lá com eles, só vem pra cá resolver umas coisas.
FAZ MUITOS SHOWS LÁ?
Lá tem muito trabalho. Mas a agenda tá mais aqui. Junior [Airton Valadão Jr., irmão do cantor Nasi] é um grande empresário. Se você falar pra ele: “Ó, eu quero de segunda a sexta”, ele arranja.
VOCÊ GOSTA DE FAZER SHOWS DE SEGUNDA A SEXTA?
Não, não dá. Modéstia à parte, o nosso show é show, e dois pra gente no mesmo dia não é legal, um não ia sair bom.
Não, não dá. Modéstia à parte, o nosso show é show, e dois pra gente no mesmo dia não é legal, um não ia sair bom.
SEUS FILHOS SÃO DISCRETOS, NUNCA VI FOTOS DELES.
Tem pouca foto. Eles não gostam muito não.
Tem pouca foto. Eles não gostam muito não.
VOCÊ TAMBÉM É MUITO DISCRETO. FALA SOBRE MÚSICA, E MESMO ASSIM É BEM RARO.
É, falo sobre o meu trabalho. Agora eu tô falando sobre livro e poesia porque gosto.
É, falo sobre o meu trabalho. Agora eu tô falando sobre livro e poesia porque gosto.
MUITA GENTE TALVEZ SE SURPREENDA COM ESSE LADO, PORQUE SUA MÚSICA É POPULAR, NÃO VAI PRO LADO “INTELECTUAL”.
É, às vezes eu censuro... Pô, não pode ser muito intelectual, tem que misturar. Minha música é urbana e suburbana. Dostoiévski foi o primeiro livro cabeça que li, depois de São Tomás de Aquino. Foi Os irmãos Karamazov. É um poeta quase contemporâneo. Passou por aquela Rússia toda, dos czares. O jogadortambém é demais...
É, às vezes eu censuro... Pô, não pode ser muito intelectual, tem que misturar. Minha música é urbana e suburbana. Dostoiévski foi o primeiro livro cabeça que li, depois de São Tomás de Aquino. Foi Os irmãos Karamazov. É um poeta quase contemporâneo. Passou por aquela Rússia toda, dos czares. O jogadortambém é demais...
Leitura minha total. A história do Taj Mahal é linda, na Índia, na cidade de Agra. O príncipe Xá-Jehan era persa, na época em que a Pérsia dominava. E ele casou com Nunts Mahal, devia gostar muito dela, porque tiveram 14 filhos e ele ainda contratou os melhores artesãos turcos e italianos para fazer aquele palácio maravilhoso de pedras preciosas, o Taj Mahal.
VOCÊ JÁ FOI LÁ?
Não. Soube agora que o palácio está moderno, não tinha nem banheiro pra turista, agora tem. Vou ter que ir. Tentei duas vezes, estava em Londres, e a gente ia tocar depois na Tunísia, França, Itália. Aí pensei: vou pra Agra. Mas ia ter que tomar três vacinas e fiquei pensando: pô, vou tomar vacina, pode me dar alguma coisa e tenho o resto da excursão pra fazer. Aí estou esperando.
Não. Soube agora que o palácio está moderno, não tinha nem banheiro pra turista, agora tem. Vou ter que ir. Tentei duas vezes, estava em Londres, e a gente ia tocar depois na Tunísia, França, Itália. Aí pensei: vou pra Agra. Mas ia ter que tomar três vacinas e fiquei pensando: pô, vou tomar vacina, pode me dar alguma coisa e tenho o resto da excursão pra fazer. Aí estou esperando.
VOCÊ FALA DOS TUAREGUES EM MÚSICA, FICO IMAGINANDO SE NO SEU SANGUE NÃO CORRE ALGUMA COISA ORIENTAL...
Não, mas eu gosto daquela história. Tem uma espiritualidade, a Índia toda tem. Minha ascendência por parte de mãe é etíope. Agora, por parte de meu pai, é uma mistura de europeus. A família toda dele é branquinha, minha avó era branca, dizem que era austríaca. Meu pai era moreno, nasceu no Brasil já misturado. O resto da família é tudo claro, e eu sou mesclado porque misturou com minha mãe, a África. Nem é muito África lá, Etiópia é outra coisa. Uma coisa incrível que eu estava vendo é que na Etiópia mesmo eles se sentem mais europeus que africanos.
Não, mas eu gosto daquela história. Tem uma espiritualidade, a Índia toda tem. Minha ascendência por parte de mãe é etíope. Agora, por parte de meu pai, é uma mistura de europeus. A família toda dele é branquinha, minha avó era branca, dizem que era austríaca. Meu pai era moreno, nasceu no Brasil já misturado. O resto da família é tudo claro, e eu sou mesclado porque misturou com minha mãe, a África. Nem é muito África lá, Etiópia é outra coisa. Uma coisa incrível que eu estava vendo é que na Etiópia mesmo eles se sentem mais europeus que africanos.
“Eu morava no interior da Flórida, numa cidade bem caipira, Bradenton, onde você vê ainda aqueles caras que nem em filme, de macacão e chapeu de rancheiro”
PODE CONTAR SOBRE SUA INFÂNCIA?
Ah, meus pais foram maravilhosos. Meu pai nasceu no Rio. Minha mãe nasceu na divisa de Rio e São Paulo, em zona rural, não sei se é Queluz. Meu avô era agricultor. Contam que veio pra cá sem querer, que estava em um navio que saiu lá do Mediterrâneo e ia pra outro lugar, e aí parou no Brasil. Por isso eu falo “por um descuido geográfico parou no Brasil num dia de Carnaval” [verso de “Crioula”, de 1969].
Ah, meus pais foram maravilhosos. Meu pai nasceu no Rio. Minha mãe nasceu na divisa de Rio e São Paulo, em zona rural, não sei se é Queluz. Meu avô era agricultor. Contam que veio pra cá sem querer, que estava em um navio que saiu lá do Mediterrâneo e ia pra outro lugar, e aí parou no Brasil. Por isso eu falo “por um descuido geográfico parou no Brasil num dia de Carnaval” [verso de “Crioula”, de 1969].
DE ONDE VINHA O NAVIO?
Da Etiópia. Que estava sendo invadida.
Da Etiópia. Que estava sendo invadida.
O QUE SEUS PAIS FAZIAM?
De meu pai aprendi a malandragem e o lado filósofo. Meu pai foi um grande estivador. Tinha um Ford bigode, um caminhão, e o orgulho dele era domingo levar o pessoal pro futebol e pra piquenique. Trabalhou de estivador e quando se aposentou fez parte do bon-vivant da zona sul, morava em Copacabana, ia à praia pescar.
De meu pai aprendi a malandragem e o lado filósofo. Meu pai foi um grande estivador. Tinha um Ford bigode, um caminhão, e o orgulho dele era domingo levar o pessoal pro futebol e pra piquenique. Trabalhou de estivador e quando se aposentou fez parte do bon-vivant da zona sul, morava em Copacabana, ia à praia pescar.
SUA FAMÍLIA NUNCA FOI POBRE?
Não, pobre não. Sempre teve roupa pra mim, e colégio. Esses quase três anos que passei no seminário foram uma bolsa de estudo que meu pai arrumou pra mim. Tinha saído do primário, fiz ginásio e aí arrumei a bolsa, foi a melhor coisa.
Não, pobre não. Sempre teve roupa pra mim, e colégio. Esses quase três anos que passei no seminário foram uma bolsa de estudo que meu pai arrumou pra mim. Tinha saído do primário, fiz ginásio e aí arrumei a bolsa, foi a melhor coisa.
VOCÊ GOSTAVA? SEMINÁRIO PASSA A IDEIA DE ALGO RIGOROSO.
Era rigoroso total, mas tinha uma aura... Quando você voltava pro povo, você sentia. Mudava tudo, era um distúrbio. Lá era uma calmaria, falava-se baixo, sem palavrão, cumprindo ordens. Você tinha acesso aos livros pra rezar, pra cantar no coro gregoriano, aquelas coisas bonitas. Eu rezava missa em latim. Fui coroinha também.
Era rigoroso total, mas tinha uma aura... Quando você voltava pro povo, você sentia. Mudava tudo, era um distúrbio. Lá era uma calmaria, falava-se baixo, sem palavrão, cumprindo ordens. Você tinha acesso aos livros pra rezar, pra cantar no coro gregoriano, aquelas coisas bonitas. Eu rezava missa em latim. Fui coroinha também.
Imagem: Paulo Salomao / Editora Abril
Com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Gal Costa e os irmãos Sérgio e Arnaldo Baptista, na estreia do programa Divino, Maravilhoso, da rede Tupi
Sou religioso. Sou cristão, católico e carioca. Só não sou romano porque nasci no Rio de Janeiro.
MAS É ECLÉTICO TAMBÉM. OGUM APARECE MUITO NAS MÚSICAS.
Faz parte da filosofia, né? A igreja, sabe, foi uma coisa que os negros africanos tiveram que inventar, em cada orixá eles botavam o nome de um santo, pra poder sobreviver. É a mitologia dos orixás, essa é a mística.
Faz parte da filosofia, né? A igreja, sabe, foi uma coisa que os negros africanos tiveram que inventar, em cada orixá eles botavam o nome de um santo, pra poder sobreviver. É a mitologia dos orixás, essa é a mística.
É VERDADE QUE VOCÊ QUERIA SER JOGADOR DE FUTEBOL, E NÃO MÚSICO?
É, joguei no infanto juvenil do Flamengo. O futebol era bom, mas eu tinha que correr pra trabalhar, estudar, pagar as contas. Lá não ganhava nada, não era remunerado. Até que apareceu a música, mas era outra coisa que eu também não queria.
É, joguei no infanto juvenil do Flamengo. O futebol era bom, mas eu tinha que correr pra trabalhar, estudar, pagar as contas. Lá não ganhava nada, não era remunerado. Até que apareceu a música, mas era outra coisa que eu também não queria.
AI, MEU DEUS. O QUE SERIA DE NÓS?
Meu pai e minha mãe não gostavam. Naquele tempo músico era considerado um marginal, aquelas coisas. Não tinha respeito. Eu trabalhei um pouquinho de despachante, das 10h às 16h. E, nesse ínterim todo, eu já estava na alquimia.
Meu pai e minha mãe não gostavam. Naquele tempo músico era considerado um marginal, aquelas coisas. Não tinha respeito. Eu trabalhei um pouquinho de despachante, das 10h às 16h. E, nesse ínterim todo, eu já estava na alquimia.
ESTUDANDO, FREQUENTANDO GRUPOS?
Estudando. E tinha um grupo, um grupo de adeptos maravilhosos. Eram da América do Sul, e tinha um brasileiro, professor ou reitor de faculdade, de São Paulo. Junto com um grupo de adeptos da alquimia, ele viu uma transmutação, em 1958.
Estudando. E tinha um grupo, um grupo de adeptos maravilhosos. Eram da América do Sul, e tinha um brasileiro, professor ou reitor de faculdade, de São Paulo. Junto com um grupo de adeptos da alquimia, ele viu uma transmutação, em 1958.
DE METAL EM OURO?
É, é. Eles viram, e falaram pra mim: “É uma arte”. Quando conversei com eles falei de São Tomás de Aquino... A igreja proíbe falar que ele foi alquimista. Proíbe, mas ele foi. O papa Silvestre deixava, isso no século 13, porque São Tomás de Aquino era um cara de família riquíssima. E ele quis ser padre, monge. Seus pais tinham preparado ele pra ser o conde de Assis, maravilhoso, ricaço. Tanto que se internou sozinho. Foram tirá-lo de lá, e ele falou: “Quero ser padre, gosto daqui”. Em pleno século 13 ele escreveu aquilo tudo, já fazia arte com alquimia. E esses caras daqui viram em 1958, deviam ser grandes na alquimia pra ser convidados pra ver. A todo lugar que tinha ourives, eu ia com outro amigo estudante ver como se fazia ouro. E a gente ficava indignado, eu conto isso numa música do disco Solta o pavão [de 1975, na faixa “Luz polarizada”]: “Coloque o seu grisol sobre a luz polarizada...”.
É, é. Eles viram, e falaram pra mim: “É uma arte”. Quando conversei com eles falei de São Tomás de Aquino... A igreja proíbe falar que ele foi alquimista. Proíbe, mas ele foi. O papa Silvestre deixava, isso no século 13, porque São Tomás de Aquino era um cara de família riquíssima. E ele quis ser padre, monge. Seus pais tinham preparado ele pra ser o conde de Assis, maravilhoso, ricaço. Tanto que se internou sozinho. Foram tirá-lo de lá, e ele falou: “Quero ser padre, gosto daqui”. Em pleno século 13 ele escreveu aquilo tudo, já fazia arte com alquimia. E esses caras daqui viram em 1958, deviam ser grandes na alquimia pra ser convidados pra ver. A todo lugar que tinha ourives, eu ia com outro amigo estudante ver como se fazia ouro. E a gente ficava indignado, eu conto isso numa música do disco Solta o pavão [de 1975, na faixa “Luz polarizada”]: “Coloque o seu grisol sobre a luz polarizada...”.
NUNCA ENTENDI ESSA LETRA, “COLOQUE O SEU...”?
O seu grisol sobre a luz polarizada. Grisol é um frasco de vidro inquebrável. E aquele que forja a falsa prata e o falso ouro não merece a simpatia de ninguém. A gente ficava indignado, todas essas lojas de ourives, pô, aquele ouro todo... era mais metal que ouro. Os alquimistas falavam que é preciso um ouro que não se pode falsificar, é o ouro de dentista, aquele ouro 14, ouro malhado.
O seu grisol sobre a luz polarizada. Grisol é um frasco de vidro inquebrável. E aquele que forja a falsa prata e o falso ouro não merece a simpatia de ninguém. A gente ficava indignado, todas essas lojas de ourives, pô, aquele ouro todo... era mais metal que ouro. Os alquimistas falavam que é preciso um ouro que não se pode falsificar, é o ouro de dentista, aquele ouro 14, ouro malhado.
“Eu fazia parte de um grupo [de alquimia] maravilhoso. tinha um professor que viu uma transmutação [de metal em ouro], em 1958”
AINDA EXISTEM ALQUIMISTAS?
Eu conheço, na França. Na Europa ainda tem. No Brasil não, não tem.
Eu conheço, na França. Na Europa ainda tem. No Brasil não, não tem.
E VOCÊ JÁ FOI UM ALQUIMISTA?
Não, eu nunca cheguei a fazer transmutação.
Não, eu nunca cheguei a fazer transmutação.
NICOLAS FLAMEL E PARACELSO (PERSONAGENS DAS CANÇÕES DE A TÁBUA DE ESMERALDA) ERAM ALQUIMISTAS?
Eram, Nicolas Flamel, ele é que é meu muso. Ele e a mulher dele. Ele é “O namorado da viúva”. Ninguém queria ela – não, eles queriam, mas tinham medo, porque ela era rica e já era viúva três vezes. Flamel é do século 15. É o meu muso [cantarola], “namo-mora-rado da viúva”...
Eram, Nicolas Flamel, ele é que é meu muso. Ele e a mulher dele. Ele é “O namorado da viúva”. Ninguém queria ela – não, eles queriam, mas tinham medo, porque ela era rica e já era viúva três vezes. Flamel é do século 15. É o meu muso [cantarola], “namo-mora-rado da viúva”...
E PARACELSO É “O HOMEM DA GRAVATA FLORIDA”?
É! A história dele é maravilhosa também. Tem até hoje a casa dele na Suíça alemã. Levei o Gilberto Gil na casa do Nicolas Flamel. E, por incrível que pareça, o Gil viu uma coisa lá que eu vi, só nós dois vimos, na casa de Nicolas Flamel. Depois eu perguntei: “Gil, você viu uma coisa que eu vi?”. Ele falou: “Eu vi, você viu?”. Foi incrível.
É! A história dele é maravilhosa também. Tem até hoje a casa dele na Suíça alemã. Levei o Gilberto Gil na casa do Nicolas Flamel. E, por incrível que pareça, o Gil viu uma coisa lá que eu vi, só nós dois vimos, na casa de Nicolas Flamel. Depois eu perguntei: “Gil, você viu uma coisa que eu vi?”. Ele falou: “Eu vi, você viu?”. Foi incrível.
MAS O QUE FOI?
Vi uma coisa lá, na casa de Nicolas Flamel.
Vi uma coisa lá, na casa de Nicolas Flamel.
NÃO VAI CONTAR O QUÊ?
Não, não. Mas vimos.
Não, não. Mas vimos.
E NÃO ERA SOB O EFEITO DE ALGUMA SUBSTÂNCIA?
Não, não. Vimos uma coisa lá. Nós vimos alguma coisa, mas bonita, não feia. Uma coisa bonita.
Não, não. Vimos uma coisa lá. Nós vimos alguma coisa, mas bonita, não feia. Uma coisa bonita.
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